A primeira infância enfrenta grandes desafios e a maioria dos brasileiros ainda não reconhece a potência transformadora dessa fase da vida.
A assinatura da Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNIPI), neste mês de agosto, representa um marco na história recente do nosso país. Como avó, como cidadã, e como mulher que há anos trabalha no campo social, vi nessa medida um compromisso concreto com o futuro.
Se existe um lugar onde o Brasil deve investir para promover transformações profundas no longo prazo, esse lugar é a infância. Costumo repetir que um país não pode combater a desigualdade se não coloca a primeira infância no centro de suas decisões.
Isso porque em nenhuma outra etapa da vida o desenvolvimento será tão rápido e tão potente. A primeira infância compreende os seis primeiros anos de vida. É a fase de maior desenvolvimento do ser humano, quando as conexões cerebrais acontecem a um ritmo de 1 milhão por segundo e 90% do cérebro é formado.
Ainda assim, grande parte da população desconhece a importância dessa fase. A pesquisa Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida, realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, revelou que 42% dos brasileiros não sabem o que significa o termo “primeira infância” e 84% não reconhecem que o maior desenvolvimento físico, emocional e de aprendizagem acontece justamente nesse período.
Esse dado mostra o tamanho do desafio que temos para ampliar a consciência social sobre essa fase.
Nos últimos anos, as políticas públicas brasileiras deram passos importantes para colocar a primeira infância como prioridade:
- O Marco Legal da Primeira Infância, que trouxe uma base jurídica para garantir direitos de forma integrada.
- O complemento do Bolsa Família para famílias com crianças na primeira infância, apoiando diretamente o cuidado e o desenvolvimento infantil.
- A lei que instituiu agosto como o Mês da Primeira Infância, ampliando a visibilidade e o compromisso público.
- E agora, a PNIPI, que integra saúde, educação, assistência social, cultura, habitação, direitos humanos, justiça e igualdade racial e de gênero.
A nova política reconhece que uma criança deve ser vista com complexidade, humanidade e intencionalidade de forma interseccional. Mais do que isso, entende que nenhuma criança caminha sozinha. Como diz o provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.” Por isso, inclui também seus cuidadores, valorizando a rede de proteção e afeto que cerca cada pequena vida. Isso é revolucionário. É enxergar não só o indivíduo, mas também a coletividade que o forma e sustenta.
E aqui entra o papel da filantropia e da sociedade civil organizada. A PNIPI é fruto de anos de trabalho consistente de organizações como a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e o Todos Pela Educação, que, com o apoio da filantropia, produziram evidências, articularam alianças, ouviram especialistas e comunidades e construíram pontes com o poder público. Essa atuação que defendemos no Movimento Bem Maior, onde a filantropia se torna uma alavanca de soluções transformadoras capazes de inspirar e fortalecer políticas públicas como essa.
No MBM, apoiamos organizações com os pés no território e o olhar no sistêmico. Trabalhamos com base na escuta, na confiança e na co-construção. Sempre que vemos uma política como a PNIPI ganhar vida, reforçamos a certeza de que a filantropia colaborativa funciona, que a sociedade civil tem poder e que o Brasil tem as respostas.
Ainda há muito por fazer. A política foi lançada, mas precisa ser implementada, acompanhada e defendida. Isso exige continuidade de investimento em quem cuida, educa, protege e inova. O investimento social privado precisa permanecer comprometido com aquilo que não se mede de imediato, mas que constrói o futuro — o cuidado, o afeto e a base de uma sociedade mais justa.
Se queremos um país com mais dignidade, equidade e justiça, o caminho começa nas escolhas que fazemos pelas crianças de hoje. E nenhuma escolha é mais estratégica, mais humana e mais urgente do que garantir uma infância com cuidado, direitos e oportunidades para todos.
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Este artigo foi escrito por:
Carola M. B. Matarazzo, diretora executiva do Movimento Bem Maior
Os primeiros anos de vida moldam o futuro de uma criança. Ao investir nessa fase, investimos em mais equidade, oportunidades e qualidade de vida no longo prazo.
Neste Agosto Verde, Mês da Conscientização da Primeira Infância, reforçamos o papel da filantropia como aliada estratégica de iniciativas que cuidam do desenvolvimento integral desde o início da vida.
Vamos cuidar desde o começo?
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Acesse: www.mesdaprimeirainfancia.org.br