A frase da filósofa Angela Davis ajuda a compreender o papel das mulheres líderes no terceiro setor:
“Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”
Ao analisar a posição das mulheres na base da pirâmide social, atravessadas simultaneamente por desigualdades de raça, classe e gênero, Davis aponta que é justamente dessa posição que emergem forças capazes de tensionar e reconfigurar estruturas inteiras.
No Brasil, esse protagonismo é evidente. As mulheres representam cerca de 65% da força de trabalho no terceiro setor, segundo o Mapa das OSCs (Ipea, 2023), e são maioria na linha de frente das iniciativas sociais. Elas reorganizam relações de poder, criam novas formas de convivência e produzem soluções que reverberam muito além do espaço imediato.
É nesse contexto que se insere a campanha do mês da mulher, “Quando uma mulher lidera, o território se movimenta com ela”, que parte da escuta de lideranças comunitárias do programa Futuro Bem Maior para jogar luz sobre algo que já acontece, mas ainda é pouco reconhecido: o lugar central das mulheres na sustentação e transformação dos territórios.
Liderança feminina que nasce do território
A liderança dessas mulheres não é construída à distância nem mediada por modelos externos. Ela emerge da experiência vivida, da relação contínua com o território e da capacidade de articular saberes locais com respostas práticas.
No Quilombo Caiana dos Crioulos, em Alagoa Grande (PB), a trajetória de Luciene Tavares, da Organização de Mulheres Negras de Caiana, mostra como liderança e pertencimento caminham juntos. Ela acompanhou a construção da escola da comunidade, foi aluna e retornou como professora. Sua atuação mostra que educação, nesses contextos, não se limita ao acesso formal, mas se torna instrumento de continuidade cultural e afirmação identitária, ao “levar os saberes da nossa cultura para dentro da sala de aula”, como afirma.
Esse mesmo movimento se repete em outros territórios. Em São Sebastião da Boa Vista (PA), o trabalho de Socorro Gomes, da Arte em Fibra de Jupatí, proporciona desenvolvimento através da cultura. Seu orgulho está em “resgatar nossa cultura e tradição passada de geração em geração e ajudar mulheres a terem uma renda extra através do artesanato”. Ali, geração de renda, autonomia e preservação cultural são construídas de forma integrada.
A redistribuição do poder nos territórios
Se a liderança nasce do território, o impacto se amplia quando ela se organiza coletivamente. Em muitos contextos, isso significa deslocar estruturas históricas de poder.
Como destaca Rosanegra Batista, da Rede Elas Negras Conexões, de Cachoeira (BA), durante muito tempo as decisões estavam concentradas nas mãos dos homens. Quando afirma que “nós mulheres podemos estar à frente das decisões e da transformação local”, ela explicita uma mudança concreta na dinâmica comunitária.
Esse movimento se materializa em ações que atravessam diferentes dimensões da vida social: geração de renda, fortalecimento da autoestima, acesso a direitos, mobilização política e redes de cuidado.
No Quilombo Caiana, o trabalho se traduz na articulação de diferentes agendas, como explica Luciene Tavares ao destacar o trabalho em “incidência política, educação, saúde e enfrentamento ao racismo e à violência contra a mulher”. A atuação é múltipla porque os desafios também são e as desigualdades se sobrepõem.
Quem sustenta o terceiro setor no Brasil
A centralidade das mulheres líderes no terceiro setor é estrutural. Segundo o Mapa das OSCs (Ipea, 2023), as mulheres representam cerca de 65% da força de trabalho no campo social. Na linha de frente das iniciativas periféricas, esse número é de 68%, de acordo com a pesquisa Periferias e Filantropia, da Iniciativa PIPA.
Isso significa que são elas que sustentam, no cotidiano, o funcionamento de organizações, projetos e redes comunitárias em todo o país.
No entanto, esse protagonismo convive com desigualdades persistentes. A presença massiva das mulheres não se traduz, necessariamente, em acesso proporcional a financiamento, reconhecimento ou condições adequadas de trabalho.
O desafio invisível das mulheres no terceiro setor
Apesar do impacto gerado e da capacidade de mobilização, a sustentabilidade dessas iniciativas segue sendo um dos maiores desafios enfrentados pelas mulheres no terceiro setor.
Em diferentes territórios, manter organizações ativas depende, muitas vezes, de trabalho voluntário e de jornadas múltiplas. Lideranças precisam conciliar o trabalho nas iniciativas com outras fontes de renda e com responsabilidades domésticas, o que configura, na prática, jornadas triplas de trabalho.
Os dados reforçam esse cenário: 31% das organizações periféricas operam com menos de R$ 5 mil por ano, segundo a pesquisa da Iniciativa PIPA. Isso escancara um descompasso entre a relevância do trabalho realizado e os recursos disponíveis.
A fala de Eliete Oliveira, da Associação Comunitária dos Moradores de Papagaio, de Valente (BA), ajuda a traduzir essa realidade ao destacar que “a falta de recursos financeiros estáveis é um grande desafio”, somada à dificuldade de manter as mulheres mobilizadas diante das múltiplas responsabilidades que acumulam.
Além disso, como aponta Rosanegra Batista, há barreiras estruturais persistentes, como a ausência histórica de políticas públicas e as dificuldades de acesso à informação, tecnologia e qualificação.
Outro ponto central é a sobreposição entre trabalho institucional, comunitário e afetivo. Como reflete Joelma Gomes, do Instituto Rainhas do Mar, localizado no Recôncavo Baiano, esse cuidado é uma “força política e sustentação do território”, mas raramente é reconhecido ou financiado como parte essencial da gestão.
Investir em mulheres líderes no terceiro setor é fortalecer territórios
Experiências como o programa Mangue Delas, do Instituto Rainhas do Mar, mostram como é possível articular formação, território e conhecimento a partir de uma lógica que integra saberes técnicos e tradicionais, reconhecendo práticas ancestrais como tecnologias sociais.
Essa mesma lógica aparece em diferentes contextos: na geração de renda, na mobilização por direitos e na construção de redes de apoio.
Como sintetiza Eliete Oliveira, “quando várias se unem, elas transformam realidades”. E essa transformação está, sobretudo, na capacidade de articulação coletiva a partir de redes, trocas e ações conjuntas.
Joelma Gomes ainda enfatiza que transformar o território não significa carregar o mundo sozinha, mas construir coletivamente, dividir responsabilidades e reconhecer o cuidado como estratégia política.
Quando uma mulher se move, o território se move com elas
A frase de Angela Davis ganha concretude no cotidiano das mulheres líderes no terceiro setor.
Quando uma mulher lidera, saberes são valorizados, direitos são reivindicados, economias locais se fortalecem e redes se consolidam. Aos poucos, o território inteiro se movimenta.
As histórias e os dados apontam para uma mesma direção: as soluções já existem nos territórios e estão sendo pensadas e construídas por mulheres.
A pergunta que fica para os investidores é sobre decisão: estamos criando as condições necessárias para que lideranças como essas cresçam com estrutura e continuidade?