Entenda como a Redes, do Movimento Bem Maior, reúne investidores, empresas e organizações sociais em coalizões territoriais pelo Brasil.
A filantropia local começa exatamente no chão em que pisamos primeiro. Antes de qualquer conexão com o mundo pelas telas, é no bairro, na cidade e no estado onde vivemos que as relações se formam e a vida ganha sentido.
Um CEP pode indicar as coordenadas de um lugar, mas é a convivência que define um território. É nele que a doação cotidiana de muitas pessoas, em gestos que podem parecer pequenos, sustenta o coletivo.
É nesse chão que organizações sociais, lideranças comunitárias, empresas e famílias fazem seu trabalho todos os dias. E é nele que o Movimento Bem Maior aposta para aproximar o recurso filantrópico de quem constrói o território, convidando quem vive e atua em cada lugar a investir junto.
Neste artigo, explicamos o que é a Redes, o que são coalizões territoriais, como elas funcionam e por que investir no próprio território é um caminho para fortalecer a filantropia local.
O que é a Redes
A Redes é a frente do Movimento Bem Maior que leva recurso filantrópico até onde ele ainda não chega, reunindo investidores, empresas e organizações sociais em coalizões territoriais. Seu propósito tem duas direções complementares: descentralizar o investimento social e ativar a filantropia de quem vive e atua em cada estado.
Cada rede tem um estado como unidade territorial e uma causa definida a partir das demandas daquele lugar. As organizações e lideranças locais, com legitimidade reconhecida em suas comunidades, ocupam o centro da estratégia. O Movimento Bem Maior entra como articulador, conectando os diferentes atores sem substituir o protagonismo de quem está no território.
Hoje, três redes estão em funcionamento, no Ceará, na Bahia e em Minas Gerais. Cada uma tem um desenho próprio, mas todas partem da mesma essência.
Coalizão e coinvestimento: qual a diferença?
Já mostramos aqui no blog por que as coalizões se tornaram estratégicas para a filantropia. Coalizão e coinvestimento aparecem com frequência nesse debate, mas não são sinônimos, e entender a diferença ajuda a compreender como a Redes funciona.
Uma coalizão é um arranjo de articulação e governança entre diferentes atores que compartilham um objetivo. Ela define papéis, regras de decisão, formas de acompanhamento e responsabilidades de cada participante. É a estrutura que permite que organizações, empresas e investidores trabalhem de forma coordenada ao longo do tempo.
O coinvestimento é o ato de investir junto, somando recursos de diferentes origens em torno de uma mesma causa. Ele pode acontecer de forma pontual, mas ganha consistência quando se apoia em uma coalizão, porque os aportes passam a seguir uma mesma direção, com critérios e acompanhamento compartilhados.
Na Redes, a coalizão é o arranjo e o coinvestimento é um dos movimentos que ela torna possível. A colaboração, nesse caso, envolve alinhar intenções e responsabilidades, e não apenas reunir recursos.
Quem faz parte de uma Rede
Cada coalizão reúne atores com papéis diferentes. Os parceiros estratégicos ajudam a desenhar e articular a rede no território. Os coinvestidores aportam recursos ao lado do Movimento Bem Maior. As organizações locais, como as organizações âncora da Redes Ceará, executam as ações e lideram o trabalho com as comunidades. E os parceiros técnicos apoiam com metodologia, formação e monitoramento.
Filantropia local: por que investir no próprio território
O investimento social privado brasileiro chega cada vez mais longe. Segundo o Censo GIFE 2024-2025, a proporção de organizações associadas que atuam no Nordeste passou de 39% para 57% em dois anos, e no Norte, de 36% para 55%. Mas quem investe ainda está concentrado: 85% dessas organizações têm sede no Sudeste, e 61% no estado de São Paulo.
Ao mesmo tempo, a cultura de doação está espalhada pelo país. A Pesquisa Doação Brasil 2024, do IDIS, mostra que o Norte tem a maior proporção de doadores do Brasil (49%), seguido pelo Nordeste (44%), ambos acima da média nacional, de 43%.
Os dois dados apontam para o mesmo lugar. O recurso filantrópico chega aos territórios, mas, em grande parte, vem de fora deles, ainda que haja em cada estado uma disposição para contribuir que pode ganhar caminhos estruturados.
Para empresários, empresas e filantropos locais, investir no lugar onde vivem e atuam traz vantagens próprias. É possível acompanhar de perto o que acontece, conhecer as organizações e as pessoas envolvidas e fortalecer vínculos com a comunidade. O que muitas vezes falta são pontes, arranjos de governança e estruturas de confiança para que esse investimento aconteça.
Como a Redes funciona
Em cada rede, o Movimento Bem Maior entra como primeiro investidor, com capital semente e de risco. Também responde pela articulação entre os participantes, pela governança, pela prestação de contas e pela gestão jurídica e financeira enquanto a coalizão se firma.
Com isso, quem decide investir entra em um arranjo já em funcionamento, sem precisar montar uma operação própria. Em coalizão, cada aporte se soma ao dos demais participantes, e os custos de análise, estrutura técnica e governança são compartilhados. É a lógica discutida no artigo Quando doar junto vira estratégia: o recurso passa a vir acompanhado de inteligência compartilhada. A governança, o acompanhamento e a prestação de contas ajudam a dar segurança a quem investe.
Para muitos investidores locais, a Redes pode ser a primeira experiência em filantropia colaborativa. Já o horizonte da estratégia é que cada articulação ganhe autonomia e siga de pé no longo prazo, com os atores do próprio território no centro.
Três redes, três desenhos
A essência é comum, mas cada rede nasce das características, prioridades e relações do seu território.
Redes Ceará
Primeira experiência da estratégia, a Redes Ceará teve uma construção participativa e funcionou como piloto do modelo. Atua em Fortaleza e Maracanaú, com foco em inclusão produtiva e segurança alimentar, a partir de organizações âncora com forte presença em seus territórios. Saiba mais sobre o lançamento da Redes Ceará.
Redes Bahia
A Redes Bahia tem foco no fortalecimento institucional de organizações da sociedade civil e coletivos de base comunitária do estado. A primeira seleção das organizações apoiadas aconteceu por edital, com participação de parceiros técnicos na condução do programa.
Redes Minas Gerais
A Redes Minas Gerais é voltada à inclusão produtiva de mulheres. Os projetos-piloto já estão em execução com a oferta de formações para esse público, enquanto o projeto estruturante da rede é desenhado.
A experiência do Ceará apoiou o lançamento das coalizões da Bahia e de Minas Gerais e mostrou a evolução da Redes de uma experiência para um processo estruturado.
Cada território é feito de muitas mãos. De organizações que formam, acolhem e geram renda, de lideranças que conhecem cada rua e de empresas e famílias que constroem ali a sua história. A Redes parte da ideia de que esses fios ganham força ao se encontrar, com propósito, coordenação e confiança.
O futuro do seu território se tece em rede.
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