O que significa, na prática, falar de inclusão produtiva? Trata-se de uma série de ações que ampliam oportunidades de geração de renda, trabalho e autonomia econômica — principalmente para pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Segundo o Sebrae, a inclusão produtiva abrange desde o fortalecimento de pequenos negócios e empreendimentos informais até a qualificação profissional, acesso ao crédito e inserção em mercados diversificados.
Especialistas como José Carlos de Souza Castro (IPEA) e o Instituto Veredas acrescentam que só o trabalho não resolve. É preciso olhar para o conjunto de fatores que sustentam a autonomia econômica: acesso a recursos produtivos, redes de apoio, formação técnica, direitos sociais e políticas públicas integradas.
Para financiadores sociais, apoiar a inclusão produtiva exige reconhecer a complexidade desses fatores e desenhar estratégias consistentes, que respeitem as especificidades de cada território e considerem as desigualdades estruturais.
O que aprendemos no Fórum Brasileiro de Microempreendedorismo
Em junho, participamos do 7º Fórum Brasileiro de Microempreendedorismo, realizado pela Aliança Empreendedora, organização apoiada pelo Movimento Bem Maior.
O evento reuniu microempreendedores, organizações sociais e gestores públicos para discutir os desafios e caminhos da inclusão produtiva no Brasil. Entre os aprendizados que levamos, quatro pontos se destacaram:
- A importância de articular acesso a crédito com capacitação.
- A necessidade de políticas afirmativas para mulheres e pessoas negras.
- A criação de plataformas de acesso a mercados com linguagem acessível.
- A valorização dos saberes e práticas dos territórios como ativos econômicos.
O encontro reforçou algo que acreditamos no MBM: soluções eficazes são aquelas construídas de forma coletiva, com escuta atenta e cooperação entre diferentes setores.
Seis caminhos para fortalecer a inclusão produtiva
A partir das discussões do evento e das experiências que acompanhamos de perto por meio das organizações apoiadas pelo Movimento Bem Maior, reunimos seis estratégias que podem orientar financiadores e organizações sociais interessadas em fortalecer a inclusão produtiva de forma sustentável, colaborativa e conectada às realidades dos territórios.
1. Valorizar saberes e práticas locais
O Brasil é um país rico em práticas produtivas tradicionais e informais, como redes de economia solidária e arranjos produtivos locais.
Estudos mostram que projetos que desconsideram essas trajetórias costumam ter baixa adesão e impacto limitado. Por isso, é essencial apoiar o mapeamento e a valorização desses saberes, reconhecendo-os como patrimônios econômicos e culturais que, há décadas, estruturam estratégias de geração de renda nas periferias urbanas e em áreas rurais.
2. Ampliar o acesso a mercados de forma estruturada
Para pequenos negócios, acessar mercados maiores ainda é um grande desafio, mesmo quando seus produtos têm qualidade. A limitação de canais de comercialização é uma das principais barreiras para a sustentabilidade econômica de pequenos empreendedores.
Financiadores podem apoiar iniciativas que conectem esses negócios a oportunidades reais de comercialização, como fazem algumas das organizações que acompanhamos, entre elas a própria Aliança Empreendedora. Isso pode incluir ações como:
- Feiras locais e eventos comunitários.
- Fortalecimento de circuitos curtos de comercialização.
- Apoio técnico em precificação, curadoria e divulgação.
Essas ações contribuem para movimentar a economia nos territórios e gerar vínculos duradouros com mercados institucionais e privados.
3. Oferecer crédito com formação e acompanhamento
O crédito, por si só, não resolve. Sem formação e acompanhamento, ele pode até aprofundar vulnerabilidades, apontam estudos.
Iniciativas como o Estímulo, fundo de impacto apoiado pelo Movimento Bem Maior, mostram que combinar crédito com capacitação prática, mentoria e acesso a redes de apoio é o que realmente fortalece a autonomia financeira dos pequenos empreendedores.
Programas que oferecem esse tipo de suporte integrado têm maior potencial de gerar estabilidade nos negócios. Por isso, é fundamental apoiar trilhas formativas personalizadas, adaptadas ao perfil e à realidade de cada território.
4. Produzir dados e avaliações com quem vive a realidade
A literatura na área reforça que medir resultados exige um olhar para aspectos econômicos e não econômicos. Dimensões como autoestima, fortalecimento de redes de apoio e qualidade de vida são algumas, como apontam o Instituto Veredas e o Sebrae.
Metodologias participativas, que envolvem os próprios empreendedores no processo, ajudam a construir indicadores mais alinhados às suas expectativas e à realidade dos territórios. Além disso, essas avaliações contribuem para que políticas e projetos possam ser aprimorados de forma contínua.
No Movimento Bem Maior, esse é um compromisso. Valorizamos processos de escuta qualificada, que reconhecem que as soluções precisam partir dos próprios territórios. Investir na produção de dados sensíveis e desagregados, considerando marcadores sociais como gênero, raça e localidade, permite compreender transformações qualitativas e orientar decisões.
5. Incorporar um olhar interseccional
Mulheres, pessoas negras, jovens de periferias e comunidades tradicionais enfrentam barreiras específicas para acessar crédito, formação e mercados.
Por isso, é indispensável que programas e políticas públicas tenham um olhar interseccional, com:
- Condições diferenciadas de financiamento.
- Capacitações adaptadas a cada público.
- Estratégias de comunicação acessíveis.
Iniciativas que incorporam esse olhar interseccional tendem a apresentar maior efetividade e relevância social. Um exemplo disso é o trabalho do Fundo Agbara, apoiado pelo Movimento Bem Maior, que fortalece negócios liderados por mulheres negras por meio de aportes financeiros, formações técnicas e apoio político-cidadão. A cada ano, a organização acompanha mais de 300 mulheres em suas trajetórias empreendedoras.
6. Apoiar a criação de infraestrutura comunitária
Muitas vezes, o que limita o desenvolvimento de um negócio não é a ideia ou o produto, mas a falta de infraestrutura física e digital.
A inclusão produtiva transformadora demanda investimentos em espaços compartilhados de produção, conectividade, equipamentos e logística. Esse tipo de infraestrutura fortalece o potencial de redes locais, reduz custos de operação e contribui para a perenidade dos negócios.
Um exemplo é o trabalho realizado pela Fundação Dom Cabral, que é uma das organizações apoiados pelo MBM em parceria com o BNDES. O Movimento Pra>Frente tem criado espaços empreendedores em diferentes territórios, em articulação com organizações locais, e já conta com 13 unidades implantadas em diversas regiões do Brasil.
Nosso compromisso com a inclusão produtiva
No Movimento Bem Maior, acreditamos que a inclusão produtiva é um caminho estratégico para reduzir desigualdades e ampliar a autonomia econômica.
Ao mesmo tempo, sabemos que esse é um processo contínuo, que exige escuta ativa, avaliação constante e parcerias entre diversos setores.
Para quem deseja atuar nessa agenda, este é um ótimo momento para experimentar novas abordagens, fortalecer alianças e construir soluções ousadas — sempre ancoradas nas realidades locais.
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Este post foi escrito por:
Rafaella Santos, Analista de projetos do Movimento Bem Maior
Crédito imagem: Nomadic Julien (@nomadicjulien) / Unsplash