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Como o diálogo intergeracional fortalece o legado

3min de leitura

Por Emanuely Lima

out 2025
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O diálogo intergeracional na filantropia é o caminho para transformar herança em continuidade estratégica e impacto compartilhado.

A filantropia familiar envolve tanto herança quanto construção. Ela conecta o que já foi feito com o que ainda precisa ser imaginado. E entre o passado e o futuro, o diálogo intergeracional pode definir o que permanece, o que muda e como se segue adiante.

Esse tema tem sido recorrente no Movimento Bem Maior, seja em conversas com filantropos, na newsletter Conexões em Movimento, ou em estudos sobre o campo da filantropia no Brasil.

Neste artigo, discutimos por que o diálogo intergeracional é relevante e o que pode acontecer quando ele é praticado com escuta, clareza e responsabilidade.

Legado familiar como continuidade no diálogo intergeracional na filantropia

A filantropia é um espaço onde questões complexas ganham visibilidade: privilégio, valores, propósito. Em muitos casos, essa conversa começa dentro de casa e se desdobra em decisões sobre como contribuir para o mundo.

Como observou Daniela Fainberg, consultora especializada em mediação intergeracional e filantropia familiar:

“Muitas vezes, essa conversa começa na sala de jantar, mas ganha forma e intenção dentro do campo da filantropia.”

Quando o diálogo intergeracional na filantropia ocorre com abertura, é possível alinhar perspectivas e tomar decisões que combinam a experiência de quem veio antes com o olhar atento de quem chega agora.

O cenário brasileiro da filantropia e a urgência do diálogo

A pesquisa Caminhos para a Filantropia Familiar, publicada pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social em 2025, mostra que muitas famílias ainda estão nos primeiros estágios de sucessão estruturada:

  • 40% dos filantropos familiares são da primeira geração
  • 59% relatam participação dos filhos nas decisões filantrópicas

Ou seja, o envolvimento familiar já existe, mas nem sempre com clareza de papéis ou com planejamento para o futuro. Diante disso, a governança intergeracional torna-se um ponto chave. Segundo o IDIS, famílias mais estruturadas estão criando conselhos com representantes de diferentes gerações, espaços de escuta e cocriação, que ajudam a alinhar expectativas e responsabilidades entre os membros da família.

O estudo também aponta que desenvolver as novas gerações é um dos principais desafios para as famílias. Ao mesmo tempo, os principais motivos que levam as famílias à filantropia incluem devolver à sociedade, transmitir valores e construir um legado. Esses dados reforçam que há intenção de continuidade. O desafio é transformá-la em prática e o diálogo é uma das ferramentas mais eficazes para isso.

Escuta ativa como base do diálogo intergeracional

Daniela também observa:

“As gerações convivem dentro de um mesmo mundo, mas enxergam esse mundo por lentes muito diferentes… Essa diferença não precisa ser conflituosa, mas precisa ser reconhecida como real.”

No contexto da filantropia familiar, escutar é tão importante quanto decidir. Às vezes, os mais jovens pressionam por mudança; os mais experientes preferem a estabilidade. O diálogo intergeracional, ao mediar esses tempos e visões, favorece decisões mais maduras, adaptadas e sustentáveis.

O papel da nova geração

Na Conexões em Movimento, conversamos com Marina Feffer, cofundadora do Generation Pledge e membro da quarta geração da família fundadora da Suzano.

Ela destacou a importância de repensar o papel das grandes fortunas e de construir um legado que esteja alinhado com os desafios contemporâneos. Em sua atuação, Marina e sua rede adotam o ciclo L.E.B. como metodologia de engajamento:

  • Look with Courage (olhar com coragem)
  • Envision with Rigor (visualizar com rigor)
  • Build with Excellence (construir com excelência)

Esse modelo propõe que cada geração se conecte com o passado, mas sem se limitar a ele. O diálogo intergeracional na filantropia, nesse caso, torna-se uma ferramenta para alinhar valores e ação com autenticidade.

O papel do MBM na promoção do diálogo intergeracional na filantropia

No Movimento Bem Maior, o diálogo acontece tanto nas relações com os filantropos associados quanto nas parcerias com organizações lideradas por jovens. Ao mesmo tempo, a atuação do MBM tem contribuído para fortalecer conexões entre diferentes gerações, classes sociais e repertórios.

Não à toa, estimular trocas diversas e a colaboração entre perspectivas complementares é parte de uma filantropia plural, estratégica e conectada com os desafios reais da sociedade brasileira. Por isso, o diálogo entre gerações vai além de um instrumento de continuidade, ele também permite revisar o que foi feito, reorganizar prioridades e incorporar novas formas de atuar.

Em outras palavras, o legado social se mantém relevante quando há espaço para transformação. E para isso, transformar exige muitas vezes escutar antes de decidir.

E você? Já iniciou esse diálogo intergeracional na sua família ou organização? Como as diferentes gerações têm participado das decisões sobre doação, propósito e impacto?

Vamos continuar essa conversa.