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Filantropia também é aprender a ficar na conversa

3min de leitura

Por Guilherme Mattoso

maio 2026
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Tem coisa que só existe porque nem todo mundo pensa igual. Filantropia é uma delas. Muitas vezes, ela começa justamente aí: no contato entre visões distintas, experiências distantes e lugares muito desiguais de poder. Reúne quem financia, quem executa e quem sente de perto os efeitos das decisões.

Isso pode ser encarado como um problema, mas prefiro encarar como um ponto de partida. Acredito que uma das tarefas mais difíceis (ou mais nobres) da filantropia é justamente criar condições para que diferenças reais não levem ao rompimento.

A filantropia lida o tempo todo com uma matéria instável. Ela tenta financiar mudanças sociais relevantes usando recursos que, muitas vezes, vêm do mesmo ambiente econômico que produz parte dos desequilíbrios que ela quer enfrentar. Temos um paradoxo e não podemos pensar nisso como detalhe. Mas o que fazemos com ele?

Uma saída fácil seria buscar algum tipo de “pureza”. Separar os bons dos maus. As intenções corretas das intenções suspeitas. Mas quem define o que é o certo e o errado? Ao meu ver, uma saída mais honesta é reconhecer a tensão e seguir trabalhando dentro dela. Isso não resolve tudo. Mas muda o olhar e obriga a filantropia a ser menos ingênua sobre si mesma.

Essa conversa fica mais forte quando a gente aceita que diferença não é falha de percurso. No Aspen Ideas de 2023, a ideia de “pluralismo filantrópico” apareceu com força trazendo a noção de que a democracia depende menos de eliminar divergências e mais de criar meios para que elas possam coexistir, sem destruir a possibilidade de ação comum.

Vivemos em um ambiente de aproximações improváveis. E, em muitos casos, o que há de mais valioso na mesa de conversa não é o alinhamento completo, mas a disposição de permanecer nela quando as visões se afastam.

Sustentar a diferença está longe de ser um gesto passivo. Dá muito trabalho. Tem que ter estômago! Discernimento! A linha entre a convivência que amplia possibilidades e a que adia conflitos precisam ser firme.

Buckminster Fuller, fututrista norte-americano, dizia que, para mudar a realidade, é preciso construir um novo modelo, que torne o antigo obsoleto. Thomas Kuhn, filósofo da ciência e também norte-americano, por outro caminho, mostrou que paradigmas começam a mudar quando o modelo atual já não consegue responder às anomalias que se acumulam diante dele.

Talvez a filantropia esteja exatamente nesse ponto.

O modelo centrado apenas em doação, eficiência e boa intenção parece curto para a complexidade do presente. Ele já não dá conta das disputas de legitimidade, impasses de representação nem das tensões entre capital privado e bem comum.

O que vem depois ainda não está pronto. Mas, talvez, já dê para perceber um traço desse próximo passo. Vamos pensar num futuro com menos certeza no comando e mais escuta. Não precisamos gastar energia buscando a convergência total de ideias, mas na capacidade de compor.

A filantropia tem um papel importante no esforço de manter aberta uma conversa difícil e na habilidade de aproximar mundos que não se encaixam facilmente. Algo como dizia o slogan de uma antiga marca de cigarros: “cada um na sua, mas com alguma coisa em comum”.

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Este artigo se inspira nas questões que orientaram o painel realizado no São Paulo Innovation Week, em 14 de maio, com participação de Beatriz Johannpeter, Carola Matarazzo, Vânia Neves e Priscila Pasqualin.

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Crédito da imagem: Arturo Añes