Coalizões impulsionam novas experiências de coinvestimento ao conectar diferentes atores em torno de causas comuns.
Alguns dos principais desafios brasileiros, da insegurança alimentar à inclusão produtiva, possuem uma característica em comum: nenhuma organização consegue enfrentá-los sozinha. Essa constatação ajuda a explicar por que as coalizões tem ganhado relevância na agenda da filantropia e do investimento social privado.
Não por acaso, as coalizões aparecem entre as tendências apontadas pela publicação Perspectivas para a Filantropia no Brasil 2026, realizada pelo IDIS. A publicação destaca o avanço de modelos colaborativos capazes de reunir diferentes recursos e poder de mobilização em torno de objetivos compartilhados. Também chama atenção para a importância de ampliar a participação dos territórios e das comunidades nas decisões relacionadas ao investimento social.
Essa agenda aponta para um movimento importante. Cresce o entendimento de que resultados mais consistentes dependem de coordenação, aprendizado coletivo e soluções conectadas às realidades locais.
O avanço das coalizões na filantropia brasileira
A colaboração já ocupa lugar relevante no ecossistema filantrópico brasileiro. Segundo o Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC) 2025, 77% das empresas respondentes participam de iniciativas desenvolvidas em parceria com outros atores.
Ao mesmo tempo, o debate evolui. A colaboração financeira continua importante, porém já não é suficiente para responder aos desafios contemporâneos. Governança compartilhada, participação social, produção conjunta de conhecimento e fortalecimento de lideranças locais passam a ocupar um lugar cada vez mais estratégico na agenda dos investidores sociais.
Nesse cenário, as coalizões surgem como estruturas capazes de trazer diferentes competências em torno de uma mesma causa ou território. Além de evitar a dispersão do investimento, elas favorecem alinhamento estratégico, coordenação de esforços e construção coletiva de soluções.
O que diferencia uma coalizão de um modelo tradicional de investimento?
Em modelos convencionais, cada investidor define prioridades, seleciona organizações e acompanha resultados, ou ainda executa as atividades. Nas coalizões, a lógica é outra. Diferentes instituições unem capacidades complementares e compartilham uma visão comum.
Recursos financeiros são importantes, mas representam apenas parte da equação. Redes de relacionamento, conhecimento técnico e influência institucional também entram em campo. Essa articulação favorece decisões mais qualificadas, reduz a fragmentação dos esforços e fortalece organizações que já possuem legitimidade junto às comunidades onde atuam.
Além disso, cria ambientes de aprendizagem contínua. Empresas, filantropos, organizações da sociedade civil, academia e poder público passam a contribuir a partir de perspectivas distintas, ampliando a compreensão dos desafios e a qualidade das soluções construídas.
O crescimento dos modelos de coinvestimento reforça uma dinâmica de colaboração e corresponsabilidade desde o princípio. Nesse modelo, riscos, conhecimento e capacidade de execução são compartilhados entre os parceiros, possibilitando resultados que dificilmente seriam alcançados de forma individual.
O território como ponto de partida
À medida que coalizões e modelos de coinvestimento se consolidam, ganha força também o entendimento de que as soluções dependem da participação de quem vivencia os desafios no dia a dia.
Experiências nacionais e internacionais mostram que iniciativas construídas com participação ativa das comunidades apresentam maior aderência às necessidades locais, fortalecem capacidades existentes e geram resultados mais consistentes.
Nosso programa de fortalecimento de base comunitária, Futuro Bem Maior, também reforça essa percepção, que aparece também no estudo do IDIS. Com isso, o desafio passa a ser menos em relação ao compartilhamento de recursos e mais sobre a construção de relações que possam incorporar diferentes perspectivas na definição das estratégias.
Para além da efetividade dessa abordagem, colocar o território no centro das decisões contribui para reduzir assimetrias históricas de poder e fortalece o papel da sociedade civil como protagonista na construção de soluções para problemas complexos.
Como a Redes coloca em prática as coalizões nos territórios
É justamente dessa visão que nasce a iniciativa Redes, nova frente do Movimento Bem Maior voltada à construção de plataformas de coinvestimento territorial.
Seu objetivo é conectar investidores sociais, organizações da sociedade civil, lideranças comunitárias e parceiros estratégicos em torno de desafios compartilhados, criando condições para que recursos e esforços atuem de forma coordenada.
O projeto-piloto será desenvolvido no Ceará, estado reconhecido pela capacidade de inovação em políticas públicas, pela presença de organizações sociais atuantes e por um ambiente favorável à colaboração entre diferentes setores. Ao mesmo tempo, ainda enfrenta desafios importantes relacionados à insegurança alimentar, informalidade e vulnerabilidade social.
Segundo dados apresentados em levantamento inicial, cerca de 3,4 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar no estado e mais de 500 mil enfrentam fome grave.
A Redes Ceará concentrará sua atuação inicial nos municípios de Fortaleza (nos bairros de Grande Bom Jardim e Mucuripe) e Maracanaú. A estratégia articula inclusão produtiva, segurança alimentar e desenvolvimento territorial integrado, apoiando organizações com forte presença local e capacidade de mobilização comunitária.
A iniciativa nasce com Somos Um, Instituto Localiza e Movimento Bem Maior como realizadores; e Pacto contra a Fome e Fundação Dom Cabral como parceiros técnicos; recursos já mobilizados e uma meta de captação de R$ 10 milhões até 2027. A estrutura combina governança compartilhada, acompanhamento de resultados e produção de conhecimento, contribuindo para que os aprendizados possam fortalecer futuras experiências de coinvestimento em outros estados.
Um caminho para ampliar o impacto coletivo
Se as coalizões vêm ganhando espaço na filantropia, é porque oferecem uma alternativa concreta à dispersão de esforços que ainda marca parte do investimento social brasileiro.
É importante reconhecer que trabalhar em conjunto não elimina divergências. Pelo contrário. Exige coordenação, confiança e disposição para construir agendas comuns entre atores com perspectivas e prioridades diferentes. Ainda assim, oferecem uma das respostas mais promissoras para ampliar a efetividade dos recursos e fortalecer o ecossistema de impacto no Brasil.
A iniciativa Redes nasce dessa compreensão. Seu propósito é criar condições para que organizações, investidores, filantropos locais e lideranças atuem de forma mais conectada, fortalecendo práticas de colaboração que vêm ganhando espaço no campo da filantropia.
Sabemos que problemas complexos exigem respostas coletivas. O quanto essa convicção já está refletida na forma como investimos?